ESTÓRIA INTERESSANTE

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UMA ESTÓRIA INTERESSANTE
(Continuação da estória do nosso avô Wilhelm)


          ... Existia um lugarejo conhecido como Vila Virgínia.  Era distante da cidade de Pouso Alto, certa de 24 Km, mas não havia estrada de ligação.  O acesso era feito por tropeiros, no lombo de burros, ou então a cavalo.  Mas, um dia chegou em que se fez necessário construir uma estrada. Em Passa Quatro, havia um homem chamado Manoel Leite (um empreiteiro), o qual pretendia ganhar aquela obra.

          Mas, por razões ignoradas, a estrada Virgínia-Pouso alto não foi dada ao pretenso construtor, e sim, a uma outra empreiteira.  A estrada finalmente ficou pronta, e a Prefeitura de Virgínia comprou um caminhão, que chegou transportado pela estrada de ferro, e foi descarregado na estação de Pouso Alto.  

          Mas, quando este caminhão passava pela cidade de Passa Quatro, em cima de um vagão-prancha da estrada de ferro, consta que o veiculo foi sabotado, possivelmente pelo tal Manoel Leite, enciumado que estava, por não haver construído a estrada.  Pois bem.  Quando o caminhão foi descarregado em Pouso Alto, não havia quem soubesse manobra-lo. 

          Chamaram então, um senhor de nome Damaso, que era relojoeiro.  Este homem por sinal, era muito calmo, e de fala sossegada.  Ele conseguiu manobrar o caminhão cerca de 100 ou 200 metros, após o que, o veiculo enguiçou; nem a manivela girava Parecia que o motor estava todo grimpado. (OBSERVAÇÃO: naquele tempo, não havia partida elétrica; e não existiam ainda, as baterias que conhecemos hoje.  A partida era feita através de um magneto, acionada por meio de uma manivela, ou manícula).

          O caminhão enguiçado, Damaso não pôde fazer mais nada.  E não havia quem entendesse daquela geringonça moderna (?).  Por acaso, alguém se lembrou de Wilhelm.  Seria o único capaz de realizar a façanha.  E realmente assim aconteceu.  Atendendo ao chamado, Wilhelm saiu de Passa Quatro e foi examinar o caminhão.  Tentou virar a manícula, e nada... o caminhão estava todo emperrado.

          Desmontando o motor, peça por peça, lavando com gasolina, Wilhelm constatou que haviam introduzido pó de esmeril (pó de ferro) dentro do motor.  Aquilo tinha sido proposital, um gesto pernicioso de sabotagem, cuja suspeita recai sobre o indivíduo conhecido como Manoel Leite. 

          Bem, finalmente o caminhão foi habilmente reparado e Wilhelm botou o calhambeque para funcionar.  Marcou-se a inauguração da estrada.  Wilhelm levou toda a família no caminhão, que chegou vitorioso em Virgínia, e a população saiu às ruas, para ver o que até então desconheciam; a molecada gritava entusiasmada: - Olha o caminhão! Viva o caminhão!  

           E saíram correndo atrás do veículo, cuja cabine era fixada por duas correias de couro; o freio e as marchas eram pelo lado de fora: a buzina era semelhante a uma trombeta de metal, acionada por meio de uma borracha com formato de bola; as rodas eram de borracha maciça. Não existiam ainda, câmaras de ar, os faróis não tinham lâmpadas; uma fraca iluminação era conseguida acendendo-se tocos de vela no lugar dos faróis.  Para isso, havia um suporte apropriado, semelhante a um castiçal, dentro do (?) farol.
Primeiro caminhão da estrada Virginia x Pouso Alto-MG
(Na primeira foto acima, vemos a garagem Municipal de Virgínia, e na segunda foto, o caminhão: o motorista Wilhelm; do lado, o chefe político de Virgínia, Sr. Crispim Gomes Pinto. No alto do caminhão, o ajudante, Sr. Custódio Campos; a direita, outro ajudante, Sadi Costa Musa.  Em pé ao lado da estrada, o Sr. Luiz Gaioso)

          Wilhelm, foi então convidado para trabalhar efetivamente com o caminhão, na estrada que ligava Virgínia a Pouso Alto.  Muitas vezes, em tempos de chuva, o caminhão ficava atolado no lamaçal da estrada de chão, e era necessário uma junta de bois para puxa-lo. 

          Depois, Wilhelm acabou arrendando o caminhão e trabalhando nele por conta própria.  Na época da guerra, era tudo difícil, não havia graxa no mercado.  Wilhelm usava então gordura de porco para lubrificar o caminhão.  Quando Wilhelm viajava com o caminhão, sua esposa Martha ficava em casa preocupada, e por vezes pedia às crianças que colocassem o ouvido no chão, para ouvir se o caminhão já estava regressando pela estrada.  E as crianças diziam que sim (?), talvez só para tranquilizar a mãe.

          E Wilhelm Köhn, residiu em Virgínia por algum tempo, junto com a família (cinco anos, precisamente).  Ali, naquele lugarejo, Wilhelm enfrentou as vicissitudes da vida.  Foi talvez a sua fase mais difícil, pois para quem já tivera áureos tempos, material ou financeiramente falando, agora a pobreza do lugarejo espelhava-se também na vida de Wilhelm. 

          Conta-se que de certa feita, ele se dedicava a fabricar manualmente, um canivete por dia, ganhando com isso, um escasso dinheirinho.  Mas vale dizer que os canivetes que ele fabricava, eram muito bons, pois ele os fazia com uma habilidade incomum.  Aliás, sua capacidade protestava para muito além desta simples habilidade artesanal; ele era um técnico entendido de grandes locomotivas a vapor, era quase um engenheiro do ramo... ... ...

(Continua no próximo capítulo, ou sub menu destas estórias)... ... ... ...

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