O primeiro choque de uma força de 34 homens composta de civis e policiais mineiros, com pelotões do Exército, ocorreu no dia 13 de outubro, no túnel da Mantiqueira. Durante quatro longas horas esse punhado de bravos fez frente a uma coluna inimiga muito superior numericamente, resistindo a um fogo cerrado de fuzil e metralhadora.
No dia 14, porém, tornava-se impossível qualquer resistência ante a pressão da coluna que investia contra Passa Quatro. Essa coluna era composta de companhias do 5º batalhão da Força Pública de São Paulo. Passa Quatro foi ocupada, mas não se rendeu.
Ora, as forças legalistas que ocuparam Passa Quatro compunham-se de pouco mais de 600 homens. E a Polícia Mineira, em toda a região, mantinha cerca de 900 homens. Que lhe competia fazer para reocupar a cidade valorosa, secundada pelos civis ciosos da sua gleba? Contra atacar sem vacilações, levar de vencida os legalistas, rojando-os para além do túnel da Mantiqueira, batidos e desencorajados.
Então desenvolveram-se no setor de Passa Quatro combates renhidos durante os quais muito sangue correu de brava gente. Os encontros mais violentos foram os de Pé do Morro e Bom Sucesso. Uma coluna de 300 homens, combateu sem um minuto de trégua nos dias 16 e 17 de outubro. Até que, no dia 18, raiou a aurora da Vitória. As tropas legalistas evacuaram totalmente a região, certas da impossibilidade de vencer a resistência de Passa Quatro.
Não podia ter sido maior nem mais heroica semelhante resistência, dadas as dificuldades de abastecimento e a desigualdade de efetivos no primeiro momento do choque beligero. Mas de qualquer forma, antes e depois de receber reforços de que carecia, Passa Quatro mostrou-se à altura da missão que lhe competia como ponto de alta relevância estratégica, numa região próxima ao túnel da Mantiqueira. Os seus filhos podem dizer, como na ode de Horácio, que
ergueram um monumento mais duradouro do que o bronze: "
exegi monumentum aere perennius".
O trecho do grande Estado de Minas Gerais conhecido pelo nome de "Zona Sul-Mineira" é uma terra prodigiosa, onde tudo dá e do melhor, principalmente o café, que é a sua maior riqueza. A lavoura, ali não é no presente apenas um instrumento de riqueza em ação: é ainda um mundo de possibilidades a descobrir e explorar no futuro, porque possuímos largas extensões de mata virgem, cujo solo fecundo nos dá o prognóstico certo de um surto agrícola de incalculáveis abundâncias amanhã.
A terra, grande potencia criadora, é o manancial perene de onde brota a nossa riqueza, com a qual alimentamos os nossos orçamentos, movimentamos o nosso comercio, fazemos o nosso crédito, damos brilho à nossa civilização e desenvolvemos a trajetória da nossa prosperidade e do nosso futuro.
Falar da terra fecunda, da terra mãe, que nos dá o pão, o dinheiro, os recursos, a vida enfim, a falar nas zonas rurais, nos trabalhos e serviços da agricultura, é falar na terra fértil e produtora, amansada dia a dia pelo braço humano, na labuta constante e pertinaz de vencer mais uma etapa no caminho do seu destino.
Estas palavras nos acodem a mente à mente ao termos que falar, com sincera simpatia, do município de Pouso Alto, onde nos detivemos durante alguns dias. Julio Ribeiro, o saudoso romancista mineiro, cujo berço natal é a velha cidade de Sabará, tendo passado alguns anos de sua infância em Pouso Alto, assim evocou a bela cidade Sul Mineira, quando residia em São Paulo:
"Pouso Alto! Salve, região selvatica, em que correu veloz a minha infância. " Salve, montanhas agrestes, que muito galguei com a fronte rorejada de suor e o coração cheio de crenças! Salve, florestas virgens, confidentes de meus primeiros afetos! Salve, cascatas ruidosas, que me desalterastes tanta vez os lábios pulverulentos da jornada! Salve, lympha do riacho, vencida por mim a braço, domada por mim, a remo! Salve, céu puríssimo, alentador das minhas esperanças de menino! Salve, eco, que repetiste as minhas primeiras queixas! Salve, terra que bebestes as minhas primeiras lágrima!"
"Daqui, destas plagas de industria e trabalho, onde o vapor tem o trono e a eletricidade um altar, gasto pelo atrito do mundo, sem ter mais no peito uma fibra que possa ressoar um doce acorde - eu ainda te envio uma saudação: Salve, Pouso Alto, Salve!"
O município de Pouso Alto (foto acima) - criado pela lei n. 2.079, de 19 de Dezembro de 1874 (a criação da freguesia e distrito de Pouso Alto, data do ano de 1843), está situado na formosa região Sul Mineira e é notável pelo incremento que tem tomado as suas forças produtoras.
Com efeito, Pouso Alto, colocado no Vale do Rio Verde, e banhado pelo curso d'água, cujo nome herdou, acha-se em condições muito prósperas, no tocante à sua vida agrícola e industrial. É assim que ali vão se desenvolvendo, com muita exuberância, todas as culturas, ocupando o primeiro lugar a do fumo, cuja produção anual, já atinge a 100.000 arrobas. É a afamada a marca - fumo do Picú.
Faz também exportação, em não pequena escala, dos demais produtos, que primam sempre pela boa qualidade, como sejam, lacticínios, gado bovino, cereais, toucinho, etc. O orçamento do município é de 80:000$000. Tem escolas urbanas e rurais. A industria pastoril está igualmente bem desenvolvida, notadamente na parte relativa à seleção de raças, encontrando-se ali belos exemplares das Simenthal, Schwitz, Holandeza, Jersey e outras.
Na criação do gado cavalar, muito incrementada também em todo o município, se destaca a raça "Manga Larga" cujos espécimes são magníficos andadores, preferidos para sela. Para criação de suínos, existentes em número avultadíssimo em todas as propriedades agrículas do município, é preferida a raça canastrão.
Pouso Alto tem boas aguadas conservadas, sendo o seu território banhado pelos rios Verde, Passa Quatro e Capivary e em suas pastagens existe grande numero de cabeças de criação. O gado de criar é nacional (creoulo) e de raças estrangeiras, como Simenthal, Jersey, Schitz e Hollandezas.
A cavaleiro da cidade de Pouso Alto (que teve essa categoria pela lei n. 2.461, de 19 de outubro de 1878) está a Igreja Matriz da freguesia, colocada em pondo belíssimo, donde se descortina vastíssimo horizonte. É um templo elegante e cuidado com muito carinho.
No município de Pouso Alto, está a grande Serra do Picú (melhor diríamos, Itgamonte) que foi transposta pelos primeiros bandeirantes, vindos de S. Paulo, entre os quais Felix Jacques, Gonçalves Figueira, Francisco Dias de Avilla, Mathias Cardoso, Fernão Dias Paes Leme, Caetano Tacques, Garcia Rodrigues, José Dias Paes e Manoel de Borba Gato, e dela fizeram balisa para ponto de referência no descobrimento dos demais lugares do Sul de Minas.
A sede do distrito de S. José do Picú (ou Itamonte) está edificada nas fraldas dessa Serra lendária, muito notável pelas suas extensas culturas de fumo e café, sendo que só desta ultima rubiácea existem ali, em pleno desenvolvimento, cerca de 120.000 pés. Dotado de clima excelente ao clima de Pouso Alto, estão ainda destinados dias verdadeiramente áureos, tal a importância da sua vida agrícola e industrial, muito concorrendo para isso a índole pacífica de seu povo.
Povo pacífico, em verdade, mas cioso, como poucos, do seu brio patriótico, conforme tivemos ocasião de verificar durante a revolução de outubro. É preciso aqui salientar, como um exemplo de fé cívica, a atitude do coronel Alberto Marques, que se fez remarcar pela energia que desenvolveu durante os dias da revolução, juntamente com o promotor publico de Pouso Alto.
Este, o dr. André Sarmento, revolucionário ardente, era considerado antes da revolução como um visionário. Durante os graves dias da revolução esteve sempre em grande atividade, ora prestando informações às tropas revolucionarias, ora tomando providências de caráter preventivo, sempre vigilante e pronto para sacrificar-se pelos seus ideais. Nunca lhe passou pela mente a ideia de fracasso, mesmo quando as tropas legalistas ameaçavam invadir o sul de Minas e já combatendo em Pouso Alto, ele dizia: - "Para o triunfo final a tomada de Pouso Alto pelas tropas federais nada representa, combate-se por Minas, pelo Brasil e não apenas por Pouso Alto".
Os revolucionários convictos da vitória e que mais eficientemente trabalharam em Pouso Alto foram os srs. Alberto Marques, Drs. André Sarmento, Egydio Lucas e Carlos de Carvalho Britto. A atividade revolucionaria destes homens pode ser atestada por toda uma população. Agora, para terminar, digamos o que foi o combate entrre a gente de Pouso Alto e as tropas paulistas que invadiram o sul mineiro.
No dia 16 de outubro, Pouso Alto informava ao comando da Serra da Mantiqueira que três caminhões e um automóvel transportando soldados e oficiais da Força Pública Paulista, num total aproximado de 80 homens, se dirigiam para Itanhandu, via Virgínia, executando naturalmente o plano de atacar as tropas mineiras pela retaguarda. O comandante ao receber a comunicação depois de algumas perguntas informativas, declarou que as informações de Pouso Alto estavam causando sensação e sendo muito preciosas porque prevenia a iminência de um ataque pela retaguarda, que até então era muito problemático.
O comandante então recomendou ao Sr. Alberto Marques que aguardasse a passagem de um contingente que se achava a caminho entre S. Lourenço e Pouso Alto e o encarregasse de montar guarda no cruzamento da estrada de automóvel por onde deveria passar o contingente paulista. Para ali partiu a força mineira, composta de 60 homens. Quando iniciava o reconhecimento do terreno, em noite escura e chuvosa, foi surpreendida pela aproximação do inimigo, travando-se então renhido combate, do qual, resultou o desbarato completo das forças legais e a prisão de 15 soldados e um tenente da Força Pública Paulista.
As forças mineiras tiveram dois feridos levemente. Foram apreendidos três caminhões, quatro fuzis, metralhadora, F.M., muitos fuzis e grande cópia de material bélico. Nessa mesma noite do combate o oficial mineiro que comandava o ataque expediu desta localidade um telegrama ao comando da Serra da Mantiqueira pedindo reforço por julgar a zona perigosa; vindo então, pela madrugada um contingente de 120 homens comandados pelo então capitão Wanderlyn, que ao verificar as condições em que se deu o combate, entusiasmado, c=declarou que Deus era mineiro.
Esta notícia que ainda não foi dada à publicidade deve ser registrada a fim de ser agasalhada nas páginas da história da Revolução. O combate deu-se em território do municipio de Pouso Alto no quilômetro 12, como foi o local denominado pelo hoje major Wanderlyn.
(Esta narrativa de Afonso Celso Köhn, continua no próximo bloco: justificando o título: "O GANDE JEQUITIBÁ MAL ASSOMBRADO".