CLARA KÖHN

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Cada filho tem sua estória (bem resumida)
Clara Köhn

          Clara Köhn, foi minha mãe de criação.  Quando meu pai morreu, eu ainda era criança, e então minha mãe se mudou para São Paulo.  Minhas irmãs (por parte de mãe), foram para Itajubá, e ficaram com nossa Avó materna (Carmelina Águida Conti), e eu fiquei em Passa Quatro com os tios, segundo meu pai havia pedido antes de morrer.  


          Fiquei mesmo, com a tia Clara.  Ela cuidava bem de mim, mas de vez em quando, minha mãe vinha me visitar. Mas vamos à estória:

          ... Clara Köhn, como seus irmãos, era uma mulher muito inteligente.  Ela sabia costurar, bordar, fazer crochê, enfim, trabalhos muito bonitos.  E aprendeu tudo sozinha.  Na sua época, não havia curso disso, ou curso daquilo.  E em matéria de costura, ela não era uma simples costureira, ela era modista, ou seja, inventava modelos próprios, com muita criatividade.  Ela tinha capacidade de fazer as roupas e os vestidos mais complicados.  Eu me lembro que certa vez, ela vez um vestido de noiva, para uma moça chamada Beatriz Galvão, filha de Francisco Galvão, prefeito da cidade.  Um vestido complicadíssimo, com uma infinidade de botões minúsculos, cobertos com o próprio tecido do vestido. Me parece que levou cerca de um mês ou mais, para ficar pronto.  O corpete do vestido, todo trabalhado no próprio tecido, não sei dizer o nome daquele trabalho. Algo realmente muito bonito, que mereceu muitos elogios na época.

          Tia Clara tinha uma freguesa, que se chamava Eni Gato.  Detalhe: essa mulher era enorme, e muito gorda. Tão gorda, que não passava na porta da nossa casa.  Era preciso abrir as duas folhas da porta para ela entrar.  Essa freguesa, pelo seu tamanho incomum, só podia fazer suas roupas sob encomenda. E só a tia Clara sabia fazer as suas roupas.  Em matéria de roupas, não havia mistério para a tia Clara: ela fazia japonas, paletós, capotes, enfim, tudo.

          Tia Clara passou praticamente sua vida inteira costurando.  Costurando, e sustentando sozinha, toda a sua família: sua mãe (vovó Martha), sua irmã (Marta), seu irmão (Guilherme Jr.) e eu.  Ela nunca se casou, justamente porque tinha atrás de si, toda uma família para sustentar.  E tanto trabalhou, que no final ela se desgostou da profissão.  Ao final, já com uma idade avançada, ela já não tinha mais gosto para costuras.  Fazia sim, alguma coisa, mas sem muito entusiasmo.

          Mas, voltando no tempo, eu passei boa parte da minha vida com ela.  Aprendi a ler e escrever com 5 anos de idade, tendo tia Clara como professora.  Depois, ela queria me ensinar a falar e escrever em alemão.  Ela me ensinava com um livro alemão intitulado Schnick - Schnack.  Era um livro com estórias folclóricas alemãs.  Na capa do livro, havia anões, duendes, bonecos.  Mas eu não gostava, o livro era todo escrito com letras do tipo "gótico", uma escrita com caracteres latinos, antigos, letras todas com ângulos.  Com esse livro, aprendi um pouco, mas não muito.  E também eu não tinha muito boa vontade para tal.  Mas aprendi uma oração em alemão, que ainda me lembro até hoje, uma oração para crianças.

          Todos os dias, antes de dormir, tia Clara me fazia rezar:
          " Ich bin Klein,
            Mein Herz ist rein
            Niemands soll drin wohnen,
            Als Gott allein"

Tradução:
            Eu sou pequeno,
            Meu coração é puro,
            Ninguém pode morar nele
            Senão Deus somente.
          Aos 11 anos, eu comecei a estudar no Ginásio São Miguel, em Passa Quatro-MG.  Colégio particular dos padres da Congregação Betharram (Belo Ramo).  Colégio pago.  Não era muito barato, mas a tia Clara fez questão que eu concluísse o curso ginasial. Ainda que com sacrifício financeiro da sua parte.  Ela me considerava como um filho de verdade.

          Tenho muitas e boas lembranças de quando estava junto com ela.  Depois eu cresci, e já adulto, minha vida não se ajustava com ela, pois cada um tem o seu modo de viver, e ela também tinha a sua vidinha toda particular, que em certo momento parou no tempo e no espaço.  Então eu me afastei, vivendo independentemente, mas eu nunca a deixei desamparada.  Quando ela estava bem idosa, sozinha, consegui alguém para cuidar dela.  Alguém que soubesse (como soube), relevar suas maneiras ranzinzas, coisas da idade.

          Tia Clara cumpriu sua missão nesta vida.  E assim como ela me ensinou a rezar, eu também rezo por ela hoje. Com amor, Paz e reconhecimento por tudo o que eu lhe devo.

          Tia Clara faleceu em Resende, no dia 17 de maio de 2000, aos 88 anos de idade.

(Nesta foto: Tio carlos com sua esposa e a enteada, tia Clara e a vovó Martha)

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