CARLOS KÖHN II

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(Uma estória dentro de uma estória de Carlos Köhn)
UMA ESTÓRIA QUE SE REPETE
          Vou contar uma estória, e acho que nunca contei para ninguém, ou pelo menos evitava de tocar nesse assunto, porque me dava um pouco de tristeza, mas, nesta oportunidade, acho importante deixar registrado.


Vamos à estória:
          ... Meu pai, Paulo Köhn, morreu de um câncer no intestino.  Ele ficou internado na Casa de Saúde Santa Luzia, no Rio de Janeiro.  Meus tios, Carlos, Walter e Clara, lhe deram toda assistência possível.  Eu era muito pequeno naquela época, e não entendia direito o que estava acontecendo.  Tenho vagas lembranças de uma viagem ao Rio de Janeiro: eu, minha mãe, tia Clara e tio Carlos.

         Naquela época, a medicina não estava avançada como hoje em dia.  Os médicos fizeram o ue foi possível, mas não foi possível salvar a vida do meu pai... E o tio Carlos me contou um fato que não me esqueço, e que depois viria se repetir mais tarde, com certas semelhanças...
Os médicos pediram, ou precisavam de umas bolsas de colostomia a serem usadas no tratamento do meu pai.

          Mas, essas bolsas não haviam nem no Rio e nem em São Paulo, que eram os maiores centros, ou seja, não havia no Brasil, disponível em nenhum hospital.  Diante disso, tio Carlos e tio Walter, resolveram unir esforços e importar essas bolsas dos Estados Unidos, único lugar possível.  Não sei como fizeram, quanto tempo levou, mas conseguiram!  As bolsas importadas chegaram ao hospital (Casa de Saúde Santa Luzia). 

          A finalidade dessas bolsas, é coletar o material do corpo humano, que normalmente é feito pelo intestino, mas com o intestino sob intervenção médica (cirurgia), essas bolsas são necessárias e devem ser trocadas, substituídas e com intervenção de um curativo apropriado.  Tia Clara contava que ficou muitos dias no hospital acompanhando o meu pai, e ela mesma fazia os seus curativos.  Ela contava também que era muito penoso e muito triste o sofrimento do seu irmão (meu pai).

          ... Antes de morrer, ainda no hospital, meu pai fez um pedido, para que meus tios cuidassem do seu filho, ou seja, eu, que agora estou contando esta estória.  Meu pai faleceu em l952. Bem, mas o tempo passou. Só o tempo cura as chagas que a vida nos deixa. 

          Neste ponto, dando um salto no tempo, estamos agora no ano de 1980.  Tio Carlos fica doente. Igualzinho ao meu pai: câncer no intestino.  Ele foi atendido primeiramente em Passa Quatro.  Uma operação de emergência, mas a Santa Casa recomendou que ele fosse para o Hospital de São Lourenço.  Eu mesmo levei nosso tio para São Lourenço.  Nova operação.  Mas o médico que o atendeu, recomendou que ele fosse levado para Belo Horizonte.  Somente lá, haveria condições de continuar o tratamento. 

          Bem, o médico redigiu o encaminhamento, me deu o endereço, e fomos nós para Belo Horizonte: tio Carlos, tia Clara e Paparuna.  Viajamos a noite toda de carro, e de manhãzinha estávamos no hospital recomendado pelo médico.  Hospital Felício Roxo.  Tio Carlos ficou internado.  Alguns dias depois, o hospital faz um pedido: era preciso comprar bolsas de colostomia, e o próprio hospital indicou o hospital da CSN (Cia Siderúrgica Nacional), onde essas bolsas poderiam ser compradas. Fui a Volta Redonda, e fiquei conhecendo a farmácia do hospital da CSN: era uma farmácia muito grande, e equipada com uma enorme quantidade de medicamentos, utensílios hospitalares, enfim, algo impressionante!  Comprei com facilidade as tais bolsas e as despachei com urgência pelo correio.

          Mais algum tempo se passou, e tio Carlos teve alta do hospital.  Novamente fui para Belo Horizonte para trazer o tio Carlos de volta.  Desta vez inclusive, o primo Fernando foi comigo.  Tio Carlos conseguiu prolongar sua vida por um tempo, mas acabou falecendo. 

          Neste ponto, é interessante ou curioso notar, como a estória se repete: primeiro, tio Carlos ajuda o seu irmão (Paulo); passado um tempo, o filho do seu irmão o ajuda numa situação idêntica; parece que a vida é um ciclo que às vezes se repete de formas muito parecidas.  Um mistério que merece uma reflexão...  Como disse Shakespeare: "Há  mais mistérios entre o céu e a terra, do que sonha a nossa vã filosofia".

         
       

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